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Autores e Obras

Hoje Acordei Sedento De Sangue

Roberto Prado  - 11/02/2009

Acordei, estranhamente, sedento de sangue.

Fui à cozinha, bebi um copo d’água, que imediatamente cuspi, não consegui enganá-la. Realmente a sede era de sangue. Descobri que sou uma vitima do sentido figurado.

Sedento de sangue, estou com sede de sangue...

Como resolver isso?

O sol nasceu, abri as cortinas, preocupado, trêmulo, medroso - e se o sol me queimasse?

Claro que ele não me queimou, afinal não sou um vampiro - daqui vejo meu reflexo no espelho! - sou só uma pessoa normal que, sabe-se lá por que, hoje acordou sedento de sangue.

O dia prometia ser quente, e na TV anunciava chuva para o fim da tarde.

Troquei-me, e sai a trabalhar ainda sedento de sangue e em jejum, nem mesmo a geléia de goiaba me atraiu....

Ao chegar ao escritório deparo com minha mesa cheia de papeis, espanto-me e fico indignado, pois ao sair ontem ela esta limpa.

Alguém fez serão e deixou o resto para mim!

Estou sedento de sangue quente e espesso e alguém confunde-me com um abutre comedor de carniça!

Sento-me à mesa, meço a quantidade de papeis sobre ela, meus dentes rangem e, juro, sinto meus caninos crescerem...

Acordei sedento de sangue e estou começando a gostar disso.

Toca o interfone, e pelo calafrio na espinha, é a Dona Regina, minha chefe chamando-me à sua sala, sinto a sede aumentar seguida de um antegozo sobrenatural e uma saciedade pronta a realizar-se.

Levanto-me, olho o reflexo de meu rosto no cromado do grampeador, e sorrindo, percebo que meus caninos cresceram mesmo. Sigo em direção a sala da Dona Regina, faço toc-toc só de sacanagem, pois ela detesta isso, gosta de ser anunciada pela sua estagiária. Abro a porta antes que ela responda, encosto-me no batente e digo:

-Hoje acordei sedento de sangue...

Roberto Prado  - 11/02/2009

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